O Ourives e a Jóia.
Olá a todos, sou eu o ourives de almas.
Tenho que contar a história mais importante da minha vida que começou a muito tempo e que, infelizmente, não sei se terminou; tudo teve início quando meu “mestre Ourives”, depois de testar minhas habilidades com jóias que só precisavam de acabamento estético ou banho de lucidez, resolveu me confiar o aprimoramento de uma peça que havia sido elaborada por duas pessoas e recebeu uma forma inadequada por algumas outras.
“Ele”, quando me passou tal tarefa, não me disse nada quanto à origem muito menos finalidade da jóia e também não pediu pressa, somente empenho, amor e respeito com o material porque era único e insubstituível.
Então, por puro relaxo, confesso que comecei o trabalho sem muito interesse, mas com cautela só por saber que o material era único, mas em seguida notei que o material estava muito flexível por ter sofrido muitas dobras e envergaduras anteriormente. Então decidi enriquecer o mineral para ficar mais firme e adicionar metais nobres para valorizar o misterioso artefato, e transformá-lo em uma peça, no mínimo, adquirível para alguém.
Geralmente, me dividia entre vários trabalhos ao mesmo tempo, mas surpreendentemente, me vi dispensando toda minha atenção exclusivamente ao, até então, simples e desconhecido objeto que ganhava formas nunca vistas por ser algum no universo.
Em determinado momento eu martelei, aqueci ao extremo e resfriei repentinamente sem me preocupar com possíveis rachaduras e futuramente pude notar que não ocorreram, pelo contrário, o metal tornou-se cada vez mais forte sem que eu me desse conta, e foi aí que percebi o fascínio que a jóia já exercia sobre mim.
Em certo momento, estava saindo cada vez mais tarde do ateliê e contando os segundos para o reencontro com a, já denominada, obra da minha vida. E não havia percebido que meu ”Mestre Ourives” me orientava sobre qualquer outro projeto, mas nunca opinou sobre este em especial, deixando totalmente por minha conta e risco e posso dizer que estava se tornando um ótimo trabalho, resistente, realmente único e – como uma jóia deve ser – a mais apaixonante visão do mundo.
Em um belo dia, ou melhor, em um dia qualquer, meu “Mestre Ourives”, contemplando o meu apaixonado empenho, me esclareceu que aquele material era único porque tinha vida e sugeriu que tomasse cuidado com o desenvolvimento de vontade própria e adicionasse mais respeito ao manuseio para não ter surpresas no processo; Disse-me também que aquela jóia estava, a princípio, destinada a mim, mas de contra partida não era exatamente minha se ela mesma não decidisse assim.
Não sei se por imaturidade ou falta de humildade, entendi que a jóia era minha e ignorei todo resto continuando apaixonado pela peça mais não me importando com o fato dela ter vida própria.
Foi então que, analisando hoje, de forma tresloucada, aproveitei a rotina, o cansaço, a baixa na criatividade e novos e bons amigos para me aventurar em novas idéias para preencher os momentos das folgas; folgas essas que acabaram se estendendo ao tempo extra de trabalho que a jóia já havia se acostumado e tomado como essencial para nossa mágica e completa relação e, novamente analisando hoje, me mostrou uma falha de inexperiência no projeto. Eu havia me esquecido de acrescentar uma preciosidade chamada “Comunicação” à peça, mas, por outro lado, acertei na proporção de “Amor Próprio” e num determinado momento, quando fui procurá-la não a encontrei mais à minha disposição.
Minha linda maravilha, para minha surpresa, resolveu que poderia se alto lapidar e depois de tanta insistência me deixou ser no máximo um expectador de minha obra condicionado a dar apenas sugestões e, o pior, deixou que muitos outros artesãos opinassem também, tenho que reconhecer que algumas mudanças eram necessárias e eu não havia percebido, ficaram boas, mas outras estão simplesmente contrastando com a magnitude da jóia em si.
Sei que desde então não consigo dormir direito, viver plenamente sentindo que o melhor mesmo seria me afastar, esquecer essa peça mal agradecida que, depois de tanta dedicação, me afastara de sua beleza e majestade.
Foi então que em outro dia qualquer, porem belo, meu “Mestre Ourives” resolveu me dar uma luz e me fez lembrar todas as tentativas de minha obra para me fazer voltar ao trabalho dessa vez evoluído, porque ela se propôs a me ajudar se utilizando do discernimento e bom senso que lhe foram atribuídos junto com a vontade própria, eventos que não notei por estar totalmente envolvido com as atividades das folgas e entretido com meus novos e ótimos amigos a quem nem ao menos contei sobre a grandiosa e abandonada obra com que estava envolvido. Pedi ajuda ao “Mestre” e fui surpreendido com sua recusa sob alegação de que não poderia concertar todos os erros que eu cometesse, se aprendi a errar sozinho tenho que aprender concertar da mesma forma.
Desde então, tenho estudado outras artes e técnicas até esbarrar na técnica mais antiga que existe esquecida pela maioria dos ourives de hoje, inclusive por mim, por ser muitas vezes dolorosa ainda mais nessa situação: o “Amor”; resolvi então aplicar a arte do “Amor” e comecei a pesquisar me deparando com poucas informações concretas, tudo que eu encontrei foram aproximações, especulações e muitas formas diferentes de definição (claro que nenhum manual). Percebi que só poderia senti-lo e sentindo poderia praticá-lo sem precisar de precedentes, só o meu puro, simples e sincero Amor e tudo que vem com ele: Compreensão, Carinho, Lealdade e principalmente Respeito.
Esta história não é pra ser bonitinha, é um relato e na vida real nem tudo se resolve da forma e no momento desejado; Paramentei-me com as ferramentas que já possuía (mas que nunca tinha usado), me enchi do Amor que devora e fui novamente de encontro à minha preciosidade rara; À primeira vista, estava do mesmo jeito só que por dentro havia ganhado uma liga nova chamada “Medo”.
Até agora não consegui mais me aproximar, a polaridade magnética do medo que ela desenvolveu é a mesma polaridade do meu amor, ou seja, estão se repelindo ao invés de se atrair e me deixando perdido quanto a como reverter esse fato.
Depois de muita conversa comigo mesmo, cheguei à conclusão óbvia que, de certa forma, o medo é bom porque protege e o que eu teria que fazer é mudar a polaridade do medo ficando assim: +Amor-Medo=Atração.
Certo, fiquei feliz por achar a resposta, agora só me faltava descobrir como executar essa façanha, então, de volta as pesquisas.
De repente, entre uma leitura e outra, me ocorreu que se eu despertasse mais Amor em minha jóia, o resultado, possivelmente, seria (menos) –Medo certo?!
Muito bem, estou com ânimos renovados e de volta ao trabalho, já me sinto criativo novamente para arrumar um jeito de despertar amor em minha jóia, claro que qualquer preciosa sugestão será paga com muita gratidão e muita amizade, desde já, obrigado a todos que tiveram paciência de ler até o fim e um obrigado especial ao meu “Mestre” pela inspiração.
Quando houver novidades, volto a escrever.
Pi Sampaio
Saco
Há 15 anos

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